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domingo, 15 de abril de 2007

Determinismos

Como post que é, isto não vem resolver nada, nem sequer o assunto é resolúvel. Mas até por isso merece ser revisitado de tempos a tempos.
Por determinismo refiro-me à tendência do pensamento para coagir a liberdade de acção a um modo único (pelo menos a um único modo válido), geralmente através de uma argumentação aparentemente lógica. Esta tendência é natural, tanto no senso comum como no pensamento científico em geral, e ainda noutras formas de pensamento (religioso, por exemplo). Recorrente, só há como controlá-la, não como erradicá-la.
Em ciências naturais tende a ocorrer (actualmente) sob forma biológica: se a sinapse «X» está associada a tal processo mental, então ela causa-o. Que a causalidade seja assim reduzida de forma radical é o problema, mesmo reconhecendo a vantagem em simplificar (economizar) a argumentação. Na verdade, nada permite supor que a sinapse seja o único agente causal relevante numa acção humana, pelo contrário – isso seria supor que o continente dessa sinapse viveria sem ser afectado por fenómenos exteriores. O determinismo consiste em pensar que o modelo de descrição mais económico esgota o fenómeno e, assim, o explica.
O que se passa? Uma redução e uma equivalência: reduz-se a vida a uma parcela da sua actividade e faz-se equivaler um processo identificável com a totalidade de processos (físicos, mentais, sociais, etc.), identificados e não identificados, que inevitavelmente acompanham cada sinapse.
Numa fórmula: o determinismo científico actual, aplicado ao processo de decisão humano, reduz o hardware (ser humano no seu meio social) ao seu software (processos mentais actualmente identificados) ou, mais exactamente, ao uso desse software (às consequências verificadas do seu uso). E quem diz sinapses, diz genes, claro; quem ler literatura científica de há 100 anos verá como os «micróbios» e os «germes» explicavam tudo o que não se sabia, como hoje os «vírus» servem ao pessoal de informática...
Nas ciências sociais isto agrava-se por nem sequer haver possibilidade de experimentação isolada e controlada de forma rigorosa. É um velho vício das ciências sociais o querer replicar os processos (em boa medida idealizados, vela pena dizê-lo sem qualquer desprimor) das ciências naturais, e o esquecimento (ou a falta de cultura) do sentido próprio de certas noções («moral», «valor», etc.) faz com que mesmo resultados empíricos fiáveis e relevantes sejam enviesados na sua análise sem sequer se suspeitar disso.
O determinismo em matérias (e ciências) sociais assume geralmente a forma de racismo ou classismo inconsciente. Um conservador vê o estrangeiro como alguém que emigrou por falta de condições e que traz consigo uma cultura exterior, logo diferente e mesmo contrária à do país que o recebe e, por isso, logicamente uma fonte de problemas. Que a idealização da sua própria cultura seja assim aproblemática, que a diferença não signifique sempre oposição, que a resposta a eventuais problemas de origem exógena não os deve isolar de tratamento de problema endógenos, que a expulsão de estrangeiros não solucione coisa nenhuma, nada disso obsta ao determinismo conservador.
Simetricamente, pensar (como faz muita autoproclamada Esquerda) que todos os problemas sociais se devem às iniquidades do poder, como se o poder fosse tudo igual, não passa de determinismo. De novo, equivalência e redução: todo o poder é dado como igual (democrático ou ditatorial, etc.) e toda a relação com ele fica reduzida ao que resulta dessa equivalência, uma redução das relações sociais a uma lei da selva – a ilegalidade. Pois sem a valoração dos mecanismos legais (em sentido lato, incluindo costumes sociais geralmente aceites, i.e., que não comprometem a vida em sociedade), a análise da vida social fica reduzida a uma redescrição do «estado de natureza», como se a iniquidade ou a injustiça só pudessem ser enfrentadas pela força, contra pessoas ou bens. Ao vitimizar-se quem pratica a violência contra o «poder», demonizando sempre «os poderosos» («o sistema», «a sociedade em que vivemos», etc), apaga-se a diferença entre sociedades justas e injustas, entre sociedades que defendem ou que impedem as liberdades individuais, e reduz-se o indivíduo a um estado de animalidade, ele nada mais pode fazer além daquilo que faz, mesmo que seja roubar, etc. Como se a liberdade individual, e a responsabilidade social, não estivessem ao alcance dos pobres e dos ignorantes. Ou como se a violação de direitos humanos fosse a mesma coisa quando é sistemática (e esses direitos nem sequer reconhecidos) ou uma aberração feita apesar da própria disposição legal interna de um estado.
Naturalmente, a ciência moderna não prescinde de um certo determinismo, ao depender da causalidade. Mas apenas sob forma melhor designável como «construtivista», isto é, organizando-se de modo hipotético, elaborando modelos teóricos sempre discutíveis e (mesmo quando apostados em economizar os termos dos problemas) abertos a novas possibilidades de descrição, compreensão e pensamento, desde que fundamentadas. Sem nunca pretender sobredeterminar o seu objecto, seja em nome da ciência ou noutro qualquer, os métodos científicos são objectivos justamente por essa limitação voluntária que prescinde das certezas voluntaristas, fatalistas, e por pensar a causalidade como tendência, probabilidade, etc. No determinismo vulgar e fatalista não se trata, portanto, de «patologia da prova» (Fernando Gil), de querer provas sem falhas em matérias em que tais provas não são produzíveis. Trata-se de patologia da argumentação, que reduz a vida a um modelo e equivale aquilo que é diverso para servir o modelo (ou uma sua utilização) em vez de diferenciar o que é distinto. Nenhuma das patologias é nova, claro. Nem por isso a sua recorrência deve deixar de merecer atenção. Aqui fica só uma aproximação, admito.