Agora menos polémica e só análise. Vamos pensar colocar entre parênteses a questão da população desqualificada e centrar atenção sobre os licenciados desempregados ou sub-empregados. Lembro-me que há uns tempos, no meio de outra polémica com outros peões, já tinha escrito que, se quisessemos prosseguir a discussão sobre esta matéria, então iríamos (ou iria eu) desembocar na questão da «liberalização dos mercados, neste caso dos serviços, pela óbvia razão porque é neste sector que a maioria dos licenciados procura emprego; é que: mercados fechados = maior desemprego».
Se isto estiver certo, então a argumentação do BE - agora independentemente a quem ela serve e que tipo de pessoas representa, etc. - pode revelar-se contraproducente. Na medida em que existe desemprego licenciado - com as características particulares a que tenho vindo a aludir desde há muito -, e na medida em que está fora de questão o Estado resolver o problema absorvendo estas pessoas em massa, resta tentar perceber como é que o mercado podia incorporar estas pessoas nas áreas para as quais elas se qualificaram. E aqui, o argumento a favor da liberalização e da abertura da economia é um argumento forte; isto é, muitas coisas apontam para que uma menor regulação do mercado de produtos (e eventualmente de certas regiões do mercado de trabalho, mas isto aqui é mais duvidoso porque já existem mecanismos contratuais flexíveis o suficiente) ou medidas que incentivam ao investimento estrangeiro viessem a favorecer estas pessoas e dar-lhes mais oportunidades.
A ser verdade - e há vários estudos que apontam para estas tendência, desde trabalhos que defendem que as empresas que mais valorizam o capital humano dos profissionais são aquelas que se movem em mercados e fazem face à concorrencia internacional*; que o efeito da educação no crescimento do PIB é mais forte nas economias mais abertas**; que o Estado, por ser um grande empregador dos recursos mais qualificados do país, perverte o funcionamento dos mercados que exigem mao-de-obra mais qualificada, protegendo os insiders com óptimas condições mas deixando à porta os outsiders, entregues a um mercado que o Estado muitas vezes não deixa funcionar (sendo que este mesmo Estado só tem dinheiro para pagar os salários dos insiders, e nenhum para albergar os outsiders)***, etc. - então estamos perante uma espécie de comédia de erros, em que um partido como o BE apoiará medidas mais proteccionistas que são ou impossíveis ou nefastas para os que pretende representar, enquanto que os seus potenciais votantes, descontentes com a sua situação laboral e com a presente incapacidade de retirar da formação que fizeram todos os rendimentos que pensavam ser possível tirar, deviam, em interesse próprio, apoiar um partido que defendesse a reforma do Estado e a progressiva abertura da economia, que lhes traria mais hipóteses de encontrar emprego em empresas que necessitam de mão-de-obra qualificada.
* Dessus, S. (1998), Analyses empiriques des Déterminants de la Croissance à Long Terme, thèse de doctorat en sciences économiques, Université Paris - I
** Maurin, E., et al. (2003), «Mondialisation des échanges et emploi: le rôle des exportations», in Économie et Statistique, nº363-365, pp.33-44
*** Gelb, A. et al. (1991), «Public sector employment, rent seeking and economic growth», in Economic Journal, 101, p-1186-1199.
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sexta-feira, 20 de abril de 2007
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