sábado, 21 de abril de 2007

Do (in)determinismo na Ciência

Vou tentar alinhar umas ideias em resposta ao post do Carlos Leone sobre determinismo (ali mais abaixo), e vou referir-me especialmente ao determinismo na Ciência, sobretudo nas Ciências Naturais. Para um outro post fica o determinismo genético (que aliás foi o que começou este debate). Comece-se por especificar sobre o que falamos quando falamos de determinismo. Para o Calos Leone é o seguinte:

Por determinismo refiro-me à tendência do pensamento para coagir a liberdade de acção a um modo único (pelo menos a um único modo válido), geralmente através de uma argumentação aparentemente lógica.

Segundo a Wikipédia é:

Determinism is the philosophical proposition that every event, including human cognition, decision and action, is causally determined by an unbroken chain of prior occurrences.

Eu prefiro a da Wikipédia, e é a que vou adoptar para este post. A de Carlos Leone, a meu ver confunde determinismo com pensamento único. Apesar de muitas vezes um pretenso determinismo ser usado como pretexto para tentar impôr um pensamento único, são duas coisas diferentes. Tentar "coagir a liberdade de acção" é uma forma de ditadura, não de determinismo. Por outro lado o pensamento único per se não é um problema, acontece muitas vezes em Ciência (e noutras formas de pensamento), quando por exemplo as evidências em favor de uma teoria são consensuais, e essa teoria é aceite de forma generalizada. Nesses casos é absurdo estar a propôr teorias alternativas sem qualquer suporte, apenas por princípio de salvaguarda da diversidade. Se a argumentação determinista é aparentemente lógica, importa saber se é realmente lógica ou se o é apenas aparentemente, e se fôr este o caso há que desmontar as falhas de lógica nessa argumentação. O problema é quando esse pensamento único é imposto por coação e não como o resultado natural e normal de um debate livre de ideias, mas isso é outra questão independente do determinismo.

Em Ciências aceitando a permissa naturalista de que todos os fenómenos naturais têm uma causa natural (para mais sobre o assunto ver este post do Santiago no Conta Natura, e os links incluidos), pode chegar-se ao determinismo. Conhecendo as causas de um qualquer fenómeno, as condições iniciais e o mecanismo que o rege, então podemos prever com exatidão, sem margem para erro, as consequências, e todo o desenrolar futuro desse fenómeno. Essa era a visão do Universo que emergiu da Física de Newton, o Universo era um relógio suiço cuja compreensão estava ao alcance do homem. Essa visão levou Lord Kelvin, no fim do séc. XIX, a afirmar que a Física como Ciência estava acabada, e o trabalho dos Físicos seria apenas o de juntar casas décimais às variáveis já conhecidas, o conhecimento total dos mistérios do Universo era apenas uma questão de tempo. Restavam apenas duas nuvens a encobrir o céu deste belo panorama determista, essas duas nuvens transformaram-se na Física Quântica e na Física Relativista, e deitaram por terra a Física Newtoniana e o seu determinismo. Em rigor não foi o determinismo em si mesmo que foi enterrado, mas sim a visão determinista do Universo.

Há uma diferença talvez subtil, mas absolutamente crucial, entre determinista e determinável. Por um lado podemos continuar a imaginar o Universo, com tudo aquilo que o constitui, desde das Galáxias às sinapses, e à cognição humana, como um produto de fenómenos relacionados entre si por mecanismos de causa-efeito, segundo as leis da Natureza. Um Universo em que tudo tem uma causa e uma consequência contidas nesse mesmo Universo, o que equivale a dizer que o Universo contém já encriptado em si próprio o seu futuro. Dito de outra maneira, o futuro do Universo não é senão a consequência determinista do seu estado actual e das leis da Natureza. Como diria Einstein "Deus não joga aos dados". Por outro lado há a questão de saber se o espírito humano pode ter acesso à realidade do Universo, e se pode determinar rigorosamente e prever o comportamento desse Universo. O princípio da incerteza de Heisenberg diz-nos que não, e estabelece que é fundamentalmente impossível ao observador determinar o objecto sem alterar o estado desse mesmo objecto. Não se trata de uma questão de subjectividade do observador, mas de uma impossibilidade física. A estocado final no determinismo.

Dando um exemplo concreto para distinguir determista de determinável: o lançamento de um dado. Quando lançamos um dado podemos obter um qualquer número de 1 a 6, de forma aleatória. Mas essa aleatoriedade é-o apenas do ponto de vista (limitado) do observador humano. Quando lançamos o dado e sai 3, é porque tendo em conta a massa do dado, a sua posição inicial, o seu centro de gravidade, a força/velocidade com que é lançado, o movimento de rotação, o ângulo de embate na mesa, a elastidade desse choque, a distância percorrida, e mais algumas variáveis que não menciono por ignorância, então o resultado só poderia ser 3. Outra questão é saber se o observador poderia ter feito todas essas medições de forma suficientemente rigorosa, e se conhece as leis da Física o suficiente para calcular o resultado antecipadamente. Se o observador disser que o dado lançado de deteminada maneira vai sair 3, e se for esse o resultado conseguido, então estamos perante um fenómeno determinista. Dado que cada medição que fazemos tem uma margem de erro associada e quando fazemos o produto das várias medições, cada uma com o seu erro, o somatório dos erros, que as mais das vezes se relacionam de forma não-tlinear, torna a previsão determinista do fenómenos impossível. Mais ainda quando, conforme o princípio da incerteza, a obsevação altera o objecto, e já não estamos a observar o objecto ele mesmo mas o resultado da nossa interacção com esse objecto.

Façamos então esta distinção entre o determinismo do fenómeno observado e o pensamento determinista, i.e. a ideia de que o obsevador pode aceder ao determinismo próprio do fenómeno observado. Se chamarmos agora determinismo ao pensamento determinista, já nos aprocimamos mais da definição apresentada por Carlos Leone (mantendo a crítica feita acima). Nesta prespectiva discordo em absoluto que na Ciência haja hoje em dia um pensamento determinista.

Segundo Carlos Leone (ainda no mesmo post):
Numa fórmula: o determinismo científico actual, aplicado ao processo de decisão humano, reduz o hardware (ser humano no seu meio social) ao seu software (processos mentais actualmente identificados) ou, mais exactamente, ao uso desse software (às consequências verificadas do seu uso). E quem diz sinapses, diz genes, claro; quem ler literatura científica de há 100 anos verá como os «micróbios» e os «germes» explicavam tudo o que não se sabia, como hoje os «vírus» servem ao pessoal de informática...

Discordo em absoluto desta "acusação". Os cientístas estão bem conscientes da diferença entre o determinismo e o determinável, e conhecem bem as limitações do seu trabalho. Os cientistas tentam naturalmente explicar os fenómenos que observam à luz dos seus conhecimentos, e é natural que tenham uma visão mecanicista da natureza e em particular do ser humano (visão que eu partilho), o que é muito diferente dum pensamento determinista. Para além do mais a expeculção também faz parte do trabalho do cientista, e é por vezes mal interpretada fora da comunidade científica (há um problema de comunicação, e volto já mais à frente). O debate científico destes assuntos faz-se aliás, em geral utilizando uma muito grande relativização. E muito importante para esta discussão, não conheço exemplos nenhuns de "coacção" (utilizando o termo de Carlos Leone), mesmo quando as divergências são profundas e o debate é aceso. E até gostava de saber concretamente (fundamentado com exemplos) o que Carlos Leone entende por "determinismo científico actual". A título ilustrativo veja-se este editorial da PLoS Biology. Fala de Evolução e Medicina, seria um assunto onde se poderia esperar que a tal visão determista aparecesse em força, mas bem pelo contrário. Repare-se como é usada uma linguagem que relativiza as várias prespectivas, e são expostos vários pontos de vista divergentes. Acreditem que em geral (mas muito geral mesmo) o debate científico se passa nestes termos.

Por vezes - admito - muitas vezes mesmo, não é essa a imagem que passa para fora da comunidade científica. O problema, nestes casos, é de divulgação e informação científica, e as responsabilidades repartem-se igualmente pelos intervenientes. Os jornalistas muitas vezes não fazem um bom trabalho (como já foi aqui referido), não querem saber de relativizações do trabalho dos cientistas, querem descobertas cheias de certezas, numa linguagem que toda a gente perceba (ao arrepio do rigor científico), e no fim uma boa cacha para vender jornais. Resultado todas as semanas temos uma nova cura para o Câncro. Mas os Cientistas colaboram também, por vezes são eles próprios quem simplifica excessivamente, e quem não relativiza, têm um discurso dentro da comunidade científica e outro fora. E talvez até o próprio público em geral não esteja interessado noutra coisa por parte da Ciência que não as descobertas e as certezas absolutas. Por tudo isto parece-me que por vezes se projecta a imagem do Cientista com um discurso determinista, do tipo "é assim porque a Ciência pode prever com exactidão que vai ser assim". Mas neste caso o verdadeiro problema é um problema de comunicação.

Globalmente a Ciência não tem nem pode ter uma visão determinista - ou melhor - um pensamento determinista sobre os seus objectos de estudo. Se a Ciência, cujo estudo é sujeito a critérios de rigor, de objectividade, que obdece a um método (o que quer que isso seja) não pode assumir um postura determinista, muito menos se pode assumir essa postura fora da Ciência. Em questões de ideologia ou mero senso comum fazer afirmações deterministas é simplesmente absurdo, e muitas vezes perigoso, é um acto de fé que não provém de nenhuma análise racional de um mecanismo de causa-efeito, e como tal não é aceitável. E aqui convirjo com o Carlos Leone sobre o perigo que são os raciocínios deterministas, particularmente em questões de ideologia. Um exemplo muito importante desses determinismos perigosos é o Historicismo (presente no Marxismo, e criticado por Popper).

Dito isto, há exepções que convém ter em conta. Talvez nem sejam sequer excepções. Simplesmente há situações em que o pensamento determinista é legítimo. Por exemplo quando largamos uma maçã podemos afirmar que deterministicamente que a maçã vai cair em direcção ao chão, e não ao tecto. Há fenómenos que podemos prevêr de forma determinista. Isso leva a concluir que a simples acusação de determinismo como argumento a priori seja uma vacuidade, não tem valor em si mesmo. Um qualquer argumento determinista que seja ilegítimo deve ser desmontado pela explicação do porquê dessa ilegitimidade, e nunca com um simples arremesso dum "isso é determinista, ponto-final". Porque se assim fôr esse arremesso funciona simplesmente como o simétrico do argumento determinista inicial. Resulta numa tentativa de limitação idêntica da liberdade de pensamento, apenas de sinal contrário.

4 comentários:

CLeone disse...

A definição da wikipedia é má, como de costume. Determinismo não é uma proposição, filosófica ou não, é um modo de pensar. A partir daí, a conversa torna-se de surdos, que já era desde o post sobre a notícia da «descoberta» que eu qualifiquei de iliteracia científica. Ler tudo o que eu escrevi como uma acusação à ciência e dizer que eu reduzo a a ciência (que Zed confunde com a «sua», numa perspectiva tipicamente técnica) é simplesmente falso e não carece de refutação por já estar esclarecido à partida. Mais grave do que não saber que o termo coacção não tem significado exclusivamente ideológico ou que confundir determinismo com causalidade é insistir em ler o que não escrevo, em não ler o que escrevo, tentar provocações mesmo reconhecendo que o que eu observei é um problema científico tanto a nível da teoria como da prática e do discurso público sobre a ciência(em geral, não de nenhuma ciência em particular), etc. O que Abel Salazar dizia dos médicos que eram só médicos não se aplica só a médicos, e para referências futuras não tenciono perder mais nenhum momento a responder às postas de Zed.

A. Cabral disse...

Concordo contigo que: "o próprio público em geral não esteja interessado noutra coisa por parte da Ciência que não as descobertas e as certezas absolutas." Incerteza nao vende em praca publica.

Mas nao me convence que os media reportando ciencia tenham um impacto grande sobre a opiniao publica. O saber e' local. Portanto, as criticas de cientistas a jornalistas sao excessivas.

Zèd disse...

a.cabral
Os media têm um impacto no sentido em que difunfem a imagem de uma Ciência sem incertezas, sitematicamente. Isto legitima uma visão determinista fora do meio científico. As criticas dos cientistas são muitas vezes exageradas, de facto, porque os erros no modo como é reportada a Ciência começam nos próprios investigadores, como referi no post.

cleone,
Claro que podemos sempre criar novos significados para conceitos que jà existem hà muito tempo, mas isso é um debate que não me interessa. O determinismo é um conceito antigo tanto em filosofia como em ciência, não vale a pena estar a reinventar o que quer que seja. Em epistemologia é um debate que se tornou particularmente importante com os avanços da Fisica do inicio do sec XX (cf Quantum Theory and the Schism in Physics de Karl Popper, por exemplo), é nessa prespectiva que quero debatê-lo.

Disse logo no inicio que ia falar sobre o determinismo nas ciências e em particular nas ciências naturais. Não ignoro, obviamente, que haja outras vertentes do debate, mas esta foi a que me pareceu interessante discutir, as outras não me parecem interessantes. Naturalmente que é uma escolha pessoal, subjectiva e discutivel, não tenho problema nenhum com isso. Não quer de modo nenhum dizer que li TUDO o que escreveu como uma acusação à ciência, repito, o resto não me pareceu interessante discutir (ainda assim deu muito que escrever).

Coacção é tentar limitar a liberdade doutrem pela força, o que é muito diferente de uma diferença de opinião. Tentar argumentar de forma lógica, ou aparentemente lógica, não é uma forma de coacção. Argumentos combatem-se com argumentos. E não confundo determinismo com causalidade, simplesmente temos visões e opiniões diferentes sobre o assunto, como ficou patente nos nossos posts. Isso não me incomoda nada, nem me impede de debater o assunto, muito pelo contràrio. Fico convencido que o mesmo não se passa com Cleone. Lamento.

A. Cabral disse...

De acordo Zed. E' preciso fazer sinal de maior incerteza para uma correcta representacao da ciencia. Parece-me que os cientistas sao contudo os primeiros a rejeitar essa representacao. Creio que preferem uma cobertura da ciencia que nao revele as suas controversias e divisoes tantas vezes politizadas (e politizaveis).